10.08.2007

10.02.2007

Hope

Acabei de conhecer o blogue do Bruno, o Monoquilhas. Num ótimo post ele comenta o esperado Festival Alma Surf e dá uns trailers como prévia do que será exibido. Destaco aqui o First and Hope, dirigido pelos irmãos Malloy. Os caras saem d'água e caem no asfalto, traduzindo para o skate muito dos valores e olhar que criaram descrevendo o surfe. Achei o trailler abaixo muito bom.

O Mundo é um Moinho



Já que o assunto viagem tem sido uma constante aqui no Chasing, aqui vai uma dica que quem lê o Ondas já deveria conhecer, afinal, foi de lá que chupei essa informação. É o Tempo de Viajar, os cadernos de viagens de um surfista moderno. Reflexões de alguém que busca se encontrar em ondas ao redor do mundo e ao mesmo tempo permanece um estrangeiro. Para você entender o espírito, aqui vai o header do blogue: Fui para a floresta viver de livre vontade, para sugar o tutano da vida. Para, quando morrer, não descobrir que não vivi. (Henry David Thoreau).
Ficou curioso? Vai .

10.01.2007

Surfe pros Ouvidos


A marca Totem disponibiliza no seu site uns podcasts de primeira. Seleção fina de música boa em excelentes misturas. Hoje fui lá e baixei todos. Dica da Ticiane, amiga minha que ajuda Fred D'Orey, dono da marca, nas seleções dessas pérolas.

Marrocos. Um grand finale pro ano de 93. PARTE 2

POR CARLOS LOBO


O primeiro secret spot era uma direita incrível perto de um pico chamado que quebrava paralela a um costão de pedras, como quase todas as ondas no Marrocos. A sensação de chegar num lugar e ver ondas perfeitas quebrando sem ninguém é indescritível. Me lembro de ter ficado sozinho no fim de tarde e que não conseguia sair d’água, sempre que pegava a saideira a acabava voltando pro pico mesmo que os braços já não obedecessem mais. Paramos em mais dois secret spots que não me lembro dos nomes antes de chegarmos no vilarejo de Taghazout, perto de Agadir. Alugamos uma casa em frente ao lendário pico de Anchor Point, uma direita de sonhos em frente a ruínas que davam ao lugar uma atmosfera mágica. A poucos metros de caminhada, outras duas ondas incríveis, Mistery Point e Killer Point. A rotina era surf de manhã até o cair do dia, a noite, jantar numa travessa comunitária comendo com a mão, no melhor estilo marroquino, uma rodada de Bouarhed, tradicional jogo de cartas árabe, tomar chá de hortelã e desmaiar ouvindo o som das ondas quebrando nos costões de pedra, rezando pra que o dia seguinte fosse igual o que passou. O crowd no pico era de no máximo quinze pessoas no fim de semana, nos dias úteis as ondas eram quase só nossas. No primeiro flat que rolou pegamos os carros e fomos para as cachoeiras na Cordilheira dos Atlas, cortando as montanhas desérticas com neve eterna no topo e os oásis de palmeiras com seus pequenos vilarejos. Depois de 20 dias de ondas de todos os tamanhos o pessoal de Casablanca teve que voltar pra trabalhar. Eu fui ficando, me mudei para uma casa de uma galera que tinha acabado de vir de Portugal, onde tinha um shaper brasileiro, um hippie que fazia mandalas de arame, um surdo que falava sem parar e um australiano que quase tinha sido morto por um tubarão. O fim do ano se aproximava e sabia que um dia teria que voltar, mas adiava esta decisão indefinidamente e as semanas iam se passando até que um dia tomei uma dura da polícia que apreendeu meu carro, pois o seguro obrigatório estava vencido. Tive que me despencar de ônibus pra Casablanca, único lugar onde conseguiria renovar o seguro, uma viagem de mil quilômetros de ida e volta bastante cansativa. Na volta consegui liberar o carro, mas pra reaver minha carteira de motorista teria que comparecer à Corte em Agadir. No dia marcado para a audência tomei a estrada para lá, mas no meio do caminho simplesmente amarelei, fiz meia volta e decidi que era hora de voltar. Deixei Taghazout e peguei a estrada pro norte me sentindo um fugitivo. Algumas horas depois entrava na estradinha que levava ao primeiro secret spot com uma certa adrenalina, afinal, era um fundo de pedra, eu não sabia como estava a maré e estando sozinho se algo me acontecesse entraria para a lista de desaparecidos e minha família provavelmente nunca mais ouviria falar de mim, mas resolvi que, apesar dos riscos, merecia aquela história. Parei o carro, as ondas tinham um metro, não havia uma viva alma num raio de dezenas de quilômetros. Remei com o coração pulando no peito, mas com uma alegria imensa de estar ali. De cabeça mais do que feita voltei para a estrada, a noite morto de sono parei para dormir num camping perto de Safi. No dia seguinte, depois de mais uma esticada de algumas horas estava de novo em Moulay-Bousselam, que continuava flat, não seria naquela viagem. Reencontrei Hassan, o principal guia de birdwatching da cidade, ele precisava de ajuda, pois naquela noite haveria uma cerimônia religiosa na sua casa e as baterias de carro que eles usavam para acender as lâmpadas estavam descarregadas, só na rua principal da cidade havia luz elétrica. Problema fácil de resolver com um carro, por isso a minha chegada foi comemorada. O pai de Hassan era um sacerdote muçulmano e uma vez por ano o conselho de sacerdotes se reunia para uma cerimônia super fechada. Naquele ano a cerimônia era na sua casa, e naquela noite, por uma feliz coincidência eu fui parar ali para acompanhar de perto aquele acontecimento especial. E com aquela espécie de benção de Alah, minha viagem e aquele ano inesquecível começavam a chegar ao fim. A próxima noite já seria na Espanha e semanas depois estaria de volta ao Brasil onde a vida tomaria um outro rumo.

O Marrocos é uma ótima opção de surf pra quem quer pegar ondas sem crowd. É próximo da Europa, dá onda quase o ano inteiro e tem muitos secret spots onde se pode surfar sem ninguém em volta. A água é fria pros nossos padrões tropicais, mas não chega a ser gélida (somente no inverno), caí de shortjohn na maior parte dos dias numa boa. A direção do swell e a geografia da costa fazem com que 99% das ondas sejam pra direita, é o paraíso dos “regulars”. A maior parte dos picos são com fundos de pedras, muitas vezes sem praia, o que garante a regularidade das ondas havendo swell, mas pode rolar uns sufocos pra entrar e sair do mar e é bom ter um par de botinhas pros lugares mais complicados. Mais do que uma surftrip é uma experiência de vida bastante interessante, uma oportunidade de conviver com uma cultura milenar e rica em tradições e com um povo alegre e hospitaleiro, muito parecido com a gente. Só precisa ter um pouquinho de espírito de aventura e não se incomodar em passar alguns perrengues, afinal, como dizia Fernando Pessoa, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

9.27.2007

Marrocos. Um grand finale pro ano de 93. PARTE 1

POR CARLOS LOBO


No início de 93, trabalhava numa agência de propaganda em Sevilla quando o dono me chamou para uma conversa com final previsível, haviam perdido a maior conta da agência. Tinha uma graninha guardada e fiquei mais feliz do que preocupado. Começava então uma fase totalmente like a rolling stone na minha vida. O primeiro “compromisso” foi um Festival de Rock com Bob Dylan e John Mayall, em La Coruña. Como já estava pelo norte, resolvi passar uma temporada em Gijon na casa de conhecidos que tinham uma fábrica de pranchas em frente a uma praia de nudismo com altas ondas. Este estilo easy rider ganhou um upgrade com a compra de um velho Seat 82. Fiz umas camisetas pra vender e fui pra Cote Basque, na França, metade do tempo era camelô, a outra metade, estava dentro d’água. O negócio prosperou, virei receptador do “contrabando” que os atletas profissionais traziam do Brasil, revendia pranchas, shorts, camisas, mochilas e streps nos calçadões por onde passava o circuito do WCT e WQS. Tirei o banco do carona do carro e no espaço que ele ocupava adaptei uma cama, o porta-malas, acrescido de uma caixa de papelão e um fogareiro, virou a cozinha, e com este motorhome improvisado a saúde financeira da lojinha estava resolvida. O maior item da planilha de custos eram as cervejas na noitada. Seguindo a caravana do circuito mundial passei por Biarritz, Lacanau, Hossegor, Zarautz, na Espanha, peguei um Mundaka épico e fui parar em Portugal. Nove meses depois estava de volta a Sevilla, minha base. O que fazer? A cidade vivia a ressaca do fim da Expo 92 e uma baixa total em termos de trabalho. Uma surftrip pelo Marrocos era um sonho antigo, já tinha ido 3 vezes, mas nunca pra pegar onda, porém rolava um certo cansaço da vida de mulambo andarilho. Já estava pensando em correr seriamente atrás de trabalho quando recebi um empurrãozinho do destino. Numa tarde cinzenta, sem nada pra fazer, resolvi ir no cinema ver qualquer coisa, peguei o jornal e gostei da crítica de um filme chamado Baraka. Saí do cinema sentindo que a África estava logo ali, era só esticar o braço, e não dava pra jogar fora aquela oportunidade, não haveria segunda chance. Na tarde do dia seguinte estava em Cádiz comprando uma prancha na surfshop de um brasileiro, de lá fui direto para a estação de ferryboat em Algeciras, fiz a travessia do estreito e cheguei em Ceuta, ainda território espanhol. No dia seguinte, na hora de cruzar a fronteira encrencaram com o estado do meu carro, mas fui salvo pelo velho papo “Brésil, futebol, Romariô, Bebetô…” afinal, estava todo mundo feliz com a classificação do Marrocos pra Copa de 94.
A sensação de quem entra no Marrocos é de ter voltado no tempo mil anos. Já conhecia todas as cidades históricas e rumei direto para o pequeno vilarejo de Moulay-Bousselam, primeiro surfspot de um guia improvisado com recortes de revistas de surf espanholas. Flat total. Depois de quatro dias esperando o mar subir (ainda não havia internet) rumei para Casablanca. Estacionei em frente a um beachbreak ao lado de um minarete e fui direto pra água antes mesmo de decidir onde ficar. Havia boas ondas de um metro e somente cinco pessoas dentro d’água. Na areia contei que era brasileiro e que estava ali para surfar e dois irmãos, Jawad e Kamel, me convidaram pra “cair” na casa deles. Era um apartamento bem simples na laje de uma mesquita, em quatro quartos amontoavam-se treze pessoas, seus pais e duas irmãs com os maridos e os filhos. As cinco da manhã acordávamos com os auto-falantes a todo volume convocando os mulçumanos para a primeira das cinco orações do dia. Enquanto quase todos da casa estendiam seus tapetes para Meca partíamos para o surf. A vinte quilômetros de Casablanca tem uma onda sensacional, Dar-Bouazza, uma das únicas esquerdas do país, que quebra em três sessões sobre um fundo de pedra raso e com muitos ouriços. As semanas foram se passando, fui ficando, ajudava nas despesas da casa, levava as pessoas pra lá e pra cá no meu carro e aos poucos fui conhecendo toda a comunidade do surf. Mohamed, era comissário da Royal Moroccan, estava pra tirar férias, era o único da galera que tinha carro e teve a feliz idéia de juntar os dois carros pra fazermos uma surftrip para o sul, até a região de Agadir a 530 km de distância. A “barca” estava formada. A palavra que eu mais ouvia nos dias que antecederam a partida era “secret spot”.

9.24.2007

Swift


Em várias das surfshops divulgadas aqui no Chasing você encontrará produtos com o selo do Swift Movement. A imagem já dá a dica do que se trata. Vale um pulo para se registrar.

Eu preferia estar surfando

Quem mandou essa foto foi o camarada Gustavo Otto, do Surf4Ever. Segundo ele, encontrou a fotinho no Niceness. Muito boa.

9.19.2007

Deslizar é preciso

POR NANDO ZENARI



Nós aqui de São Paulo temos as ondas um tanto quanto inacessíveis no meio da semana, devido a distância e o tempo que passamos trabalhando e cuidando de nossas vidas. Mas o desejo de deslizar é muito grande e, assim, aproveitamos as ladeiras e pistas para matar um pouco a vontade de se locomover em cima de uma prancha.
Nesta última semana tive a oportunidade de, junto com a nata da vagabundagem da família, desfrutar de uma divertida session de skate old school em uma pista reservada só pra gente. Funs, longs e shapes reeditados, tirando onda num bowl de madeira e revestido de MDF, projetado e construido pelo Melão, o dono da Toobsland, onde se fica a pista. Vários níveis de drop, pra quem quer apavorar com flips, aéreos invertidos e rockslides, ou simplesmente mandar um carve pra matar a saudade dos movimentos do surfe.
Espetei o meu iPod no aparelho de som (sim, você faz a trilha), e andamos aos velhos tempos, com Jello Biafra, Olga, Joey Ramone e outros esgoelando-se para celebrar o momento de comunhão sobre rodas. Todos da época em que o surfe e o skate se misturavam. Quem pegava onda, andava de skate. E vice-versa.
Aí você se atira. Cai no chão, quica, pega o skate e continua. Erra, voa do carrinho, acha que é de borracha e entra no "go for it" da galera. Corpo e alma anestesiados. Gritos compartilhando os momentos. E tudo isso numa segunda-safada-chata-feira. Fez da semana já esfolada pelo feriado, ainda mais curta e passageira.
Mas como tudo tem seu preço, e ele fica cada vez mais caro conforme você vai acumulando anos, voltei pra casa com uma coleção de hematomas. Roxos de todas as tonalidades, tamanhos e volumes. Valeu a pena, mas água não machuca...

9.14.2007

Efeito Placebo


Foto: Grant Ellis

Essa semana começou como todas as outras desde quando comecei a surfar. Sentei na minha mesa no canto da sala e fui vendo, um a um, os fantasmas se acomodarem em seus lugares. Com a forma de suas bundas moldadas nos assentos das cadeiras, pareceu quase natural que passassem o resto do dia ali sem se levantarem. O organograma inteiro da empresa, da base ao topo, remando ao som dos tambores num prédio sem janelas, sem remos, sem velas e sem vista para o mar. Eu também sou um deles e se nessa segunda-feira olhei com distância para os meus companheiros de escritório, foi para disfarçar a consciência de que também teria que passar a semana inteira sentado na fôrma que moldei para mim mesmo.
Li que o desenho da face é conseqüência de sua língua natal. A pronúncia das palavras modela os músculos do rosto que acabam por definir a sua aparência. Acredito que aconteça o mesmo com as funções que temos na vida: um carpinteiro fica com cara de carpinteiro. Como posso então me sentir tão fora de lugar num ambiente onde passo de 5 a 6 dias por semana? Me levanto, atravesso o longo corredor que leva até as salas de reunião e entro no banheiro para poder me olhar no espelho e ter certeza. Estamos ali, eu e meu reflexo, nos observando como desconhecidos que se esbarram num vagão metrô.
Realizo que quem moldou minha imagem no espelho não foi esse escritório ou as salas de reunião ao lado, os envelopes que me esperam na mesa ou os emails piscando na minha caixa-postal. Meu reflexo ganhou seus contornos depois de mais um dia de surfe. Já são quase dois anos desde a primeira vez e esse final de semana não foi diferente. Foi só mais um, como na maioria das vezes, e o mar nem estava bom, como era de se esperar. Mas isso realmente importa? Claro que não. Surfe não é o remédio. Surfe é o placebo. É a capsula cheia de açúcar que você engole, sente a febre baixar e os problemas se resolverem. Volto para minha cadeira e entendo que as coisas ficaram mais fáceis. Acabaram-se os tons de cinza e a vida passou a ser irremediavelmente mais simples: preta e branca. Surfar é bom, o resto é chato. E se com essa constatação viver ficou melhor, a segunda-feira, por outro lado, tornou-se insuportável. Tão longa que seus efeitos só foram acabar nessa sexta, quando tive coragem de postar aqui os meus tormentos. Mas, tudo bem. Amanhã é sábado, dia de remédio.

9.12.2007

Eu preferia estar surfando

Todo dia, não importa a hora, somos defrontados com situações que nos fazem perceber o rídiculo de certos aspectos da vida moderna. Sem o surfe, sabe-se lá o que seria de nós. Dito isso, inauguramos a sessão "Eu preferia estar surfando". Aqui, serão postadas fotos que registrem os absurdos do dia-a-dia. Um sinal claro de que não perdemos a lucidez e, ao mesmo tempo, um manifesto do quanto preferíamos estar no mar. Contribua.

Asfalto Verde


A Habitat Skateboards é mais uma daquelas marcas que fogem da paisagem. Produtos com algodão orgânico, decks de hemp ou bambú e artistas com uma pegada diferente.

Shapers



Aqui vai a dica: dois shapers e seus blogues. O Hesssurfboards e o Custom Shapes. Vale a visita.

9.03.2007

Ouvindo - Surf Wax America


Dica do Henri Honda, lá de Lisboa.

Ladeira

POR GUY COSTA




Sou baiano e vivi em Salvador até meus 23 anos. Trabalhei na Ladeira da Barra em uma agência chamada Propeg. Saia na hora do almoço e sempre nadava em uma praia famosa de Salvador, a Porto da Barra. É um lugar incrível, de água transparente e mesmo sendo mar, parece uma piscina. Sempre imaginei enquanto nadava o quanto seria lindo se aquele lugar tivesse onda. Seria um privilégio. Então, nessa última grande ressaca que atingiu o Brasil aconteceu em um dia tudo o que sempre imaginei. Deu onda no Porto da Barra em Salvador. E não foi qualquer onda, foi uma daquelas que a gente olha e pensa o quanto seria bom estar, ou pelo menos, tentar estar ali. Entrou realmente forte e com tamanho. Infelizmente hoje eu moro aqui em SP e não pude nem tentar aproveitar essa coisa inesperada, brilhante, admirável, insuperável, prazerosa que o mar pode fazer por nós: ondas. O que me deixa feliz é que alguns abençoados puderam estar naquele momento e gravar na memória do Surf que o mar faz ondas onde ele quiser. À vida boa!

8.29.2007

Follow My Soul

Esse vídeo eu surrupiei do Surf4Ever do Gustavo Otto, que, por sua vez, o surrupiou do Niceness, que deve tê-lo surrupiado de alguém. Incrível.

8.27.2007

Leia-me

Um casal amigo entrou na BlockBuster e, na dúvida sobre qual filme alugar, escolheram o “Escola do Surf”. Provavelmente graças a pressão do Godum, que é surfista há muitos anos, sobre sua mulher, a Karen. O DVD ficou encostado na prateleira no primeiro dia pois eles também alugaram outros para os quais deram prioridade. Na segunda-feira, quando se encontraram em casa depois do trabalho, decidiram assisti-lo, mesmo que fosse apenas para justificar a grana gasta com a locadora.
A Karen chegou a ler a duração, 80 minutos, e disse que não custava tentar. Abriu a caixa e ao retirar o disco, pressionando o plástico preto que o prende pelo centro, viu um papel dobrado colado no verso, onde estava escrito a mão: LEIA-ME. Tirou o bilhete com cuidado para não danificar o DVD. Só faltava ter que pagar multa por estragar um filme chamado “Escola do Surf”, pensou. Desdobrou o papelzinho duas vezes e leu o que estava escrito em voz alta para o marido:

DUVIDO QUE VOCÊ ASSISTA ESSE FILME ATÉ O FIM.


.

8.24.2007

O Tombo

POR GUSTAVO SOARES, O J

Banksy

Bate e volta numa quinta-feira, sozinho, acordando às 4h50. Às 6h30 você está pisando na areia. Na segunda onda percebe que esqueceu de fechar o zíper do long john, tamanha a fissura de entrar na água. Mar de 1 metro, o sol sobe na hora que você vara a arrebentação. Você surfa bem, espera a da série para sair do mar, sai bem, enrola a cordinha, caminha leve.
Aí chega na pedra, debaixo da qual escondeu sua chave duas horas antes. A chave sumiu. Você pensa: FU-DEU. Chegando na vaga onde seu carro deveria estar você põe a prancha na calçada e tenta respirar fundo. Mas o ódio cegaaaaaaaa, como dizia uma música esquisitaça dos anos 80.
Bem ao lado tem dois caras que estão fazendo o que você queria estar fazendo: se enxugando, colocando roupas secas, sorrindo e se preparando para ir embora depois da session. Eles não viram nada, são solidários, ligam para a polícia, você tenta respirar fundo, o long john está mais apertado do que nunca.
Sua cabeça começa a fazer um inventário de tudo que foi junto com o carro. Tinha uma bermuda comprada na Califa que você gostava. O iPod shuffle, melhor playlist da história. A grana e os cartões. As roupas que você iria vestir para poder trabalhar dali a uma hora e meia. O saquinho com as bananas para depois do surf.
Você descobre que tem polícia ali perto, chega lá correndo, com a prancha debaixo do braço, tentando não ser dramático. Os guardas ficam comovidos, você usa o telefone da PM e cancela cartão, liga pra seguro, liga pro banco. Repete seu CPF, RG e endereço mais de 30 vezes.
Tem a parte engraçada, que é andar no banco de trás do camburão, para ir à "Central" registrar a ocorrência. De neoprene e com o bico da prancha saindo pela janela. Todo mundo repara num surfista indo em cana, devem imaginar que o Fora Haole! está vigorando com toda a força no Guarujá. Em menos de duas horas uma viatura encontra o carro. Vazio, roubaram até o estepe. Deixaram o papelzinho do pedágio e o documento do carro, os vagabundos foram profissionais.
O chaveiro diz que já atendeu a mais de 80 casos de surfistas em 4 anos – e contando só clientes da Porto Seguro, imagina os outros - ele faz questão de enfatizar. Um soldado checa o cinzeiro, está vazio porque os ladrões checaram antes. O outro comenta que esse é o crime típico do Tombo. Deixa escapar: "Outro dia foi igualzinho, também era um playboy que estava surfando". Playboy.
Você dá seu jeito de voltar para São Paulo, depois de passar quase seis horas de calor dentro da roupa de borracha. Você conta para um amigo o que aconteceu e, enquanto repassa todos os acontecimentos caóticos do dia, consegue lembrar que tinha um metrinho na série, abrindo. Que no Waves tinha altas fotos. E que estava clássico, apesar de terem roubado até o saquinho com as bananas.

8.22.2007

8.20.2007

Shane Carpet

POR RICARDO REAL


Até 1982 fui paulista. Quando meu pai recebeu uma nova oportunidade de negócio, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, mas precisamente para um condomínio na Barra da Tijuca, que considero quase uma outra cidade. Tinha apenas 12 anos de idade e me dei conta de que morava em um paraíso pois tinha a praia de um lado e um enorme shopping center do outro – confesso que gostar de shopping center é meu lado paulista - e no interior dessa ilha, chamada Nova Ipanema, tínhamos o principal, muitos amigos.
Foi nessa atmosfera que descobri o surf. Com 12 anos de idade já tinha adquirido a minha primeira prancha, uma Brazilian Dreams usada, de um tal de José Alonso do Atlântico Sul, mais tarde essa biquilha foi do saudoso Bibi e posteriormente do Baiano, Fernando Quintanilha.
Éramos muito novos na época para podermos ir à praia sozinhos no período da tarde, depois do colégio e, convenhamos, nenhuma mãe acharia plausível deixar o filho de 12 anos ir curtir a praia ao invés de estudar. Desse modo só nos restava o final de semana para podermos vivenciar essa nova habilidade.
Eu, confesso, estava apaixonado por essa nova experiência sensorial que poucos esportes proporcionam com tanta intensidade.
Eram tardes intermináveis, pois tudo que eu queria era estar deslizando pelas pequenas ondas do quebra-côco da Barra.
Um belo dia observando o mar e seu horizonte da varanda da minha sala, encontrei uma maneira de mergulhar nessa experiência durante a semana.
Notei que se eu enrolasse o tapete amplo que ficava em frente ao móvel do aparelho de som da sala, estaria reproduzindo uma onda na sua absoluta essência. Inicialmente a experiência foi deitar sobre o tapete na mesma posição de remada e enquanto a mão esquerda enrolava o tapete, a minha mão direita com os dedos posicionados na forma do símbolo de paz e amor invertido, deslizava sobre a superfície felpuda do tapete verde da sala.
Ali, naquele momento, eu estava saboreando talvez o maior desafio do surf: entender a linha da onda. Foi dessa forma que estive sempre conectado com o esporte durante a semana de estudo na minha pré-adolescência.
Ao som de Pete Townsend, The Cult, Led Zeppelin, Talking Heads e AC/DC, minha imaginação foi evoluindo até eu reproduzir o circuito mundial de surf em plena tábua corrida da sala da minha casa. Todos os grandes nomes da época estiveram presentes, Mark Richards, Shaun Thomson, Martin Potter, Tom Carroll e claro, na minha imaginação, dividindo o seleto grupo de surfistas, “Shane Carpet”. Ele era soberano, conquistava sempre a maior pontuação de todas as baterias. Eram tubos, aéreos, lay backs, cut backs e floaters intermináveis na fértil imaginação de quem comandava a brincadeira.
“Shane Carpet”, com certeza, foi o maior e único campeão do “Circuito Tabacow de Surf”. Essa recordação fantasiosa me perseguiu por muitos anos, até que um dia tive o privilégio de poder materializar esse devaneio infanto-juvenil em um comercial que realizei no início desse ano. Vejam o filme e imaginem “Shane” nas ondas”.

Alaska

Dica do Giuliano Springhetti

8.17.2007

Displacement

Crowd

S.A.L. - Serviço de Atendimento ao Leitor

Esse texto, escrito por um leitor e amigo do Chasing, foi publicado no site da Hardcore e repetido aqui, com muito gosto, a pedido do autor.

OUVIR O SEGREDO - POR FELIPE MORTARA

Desde pequenos somos ensinados a ter bons modos, aprendemos valores e costumes. Não falar de boca cheia, dizer obrigado, não mentir. O tempo passa e mais valores são acrescentados. O mundo cobra de você e você também se cobra. É preciso assistir às aulas, se formar, ter sucesso. Dizer a verdade, não espalhar um segredo. Alguém pode sempre perguntar, mas a resposta é que vai dizer quem é você.
O confidencial sempre foi ensinado como algo delicado, perigoso. Aquele que confia a alguém alguma informação está dividindo uma incerteza, entregando uma chave. Que pode abrir tanto o céu como o inferno, só depende do ponto de vista.
A onda que estampa a capa da revista Hardcore desse mês é um exemplo de segredo que pode levar os que a conhecem às nuvens. Claro, existe um passaporte para lá, e não é apenas a habilidade sobre a prancha ou o faro para tubos. É um mapa que não existe no papel. Um mapa em que não estão escritas coordenadas ou referências. Os “descobridores” fizeram questão de eliminar os registros e criar um novo apelido. Assim, o paraíso pode ser em qualquer lugar.
Se você quer um nome: Pasti. Uma palavra que no idioma local significa “definitivamente”. Quem sabe seja um rumo, mas certamente será mais uma dúvida.
O único porto de entrada é acompanhado dos desbravadores. Estes não são pupilos de Robinson Crusoé, pois quando chegaram já havia moradores por lá, mas nenhum surfista. Como ninguém nunca havia deslizado sobre uma prancha por aqueles canudos, eles findaram por batizar e colonizar essa direita. Fundaram ali uma minúscula e ainda secreta nação surf.
Logicamente poderia (e ainda pode vir a) ser mais um reef crowdeado das Mentawaii ou um spot tenso do North Shore, mas não. Até agora permanece um lugar protegido, numa remota ilha da Indonésia, sem energia elétrica e com uma única pretensão. Continuar desconhecido. E a pergunta: porque esse desejo?
E como resposta, outra pergunta: - quem nunca sonhou em ter uma onda só para dividir com os amigos?
A sua pode estar em algum lugar no fim do mundo, ou na cara de todos. Mas não necessariamente no mapa. O mundo inteiro vai querer ouvir seu segredo. Será que você vai querer contar?

8.14.2007

Nascimento e Morte


Nasceu Felipe, filho do meu irmão. Foi no dia dos pais, là pelas 5h00 da manhã. Rodrigo, o pai dele, não surfa e, por isso, Felipe nunca vai ter na memória a imagem de seu pai pegando onda enquanto ele brinca na areia. Eu também não tive. Meu pai, quando novo, pegou muito jacaré em Copacabana, onde morava, mas seu esporte era o frescobol. Talvez na época o surfe fosse algo revolucionário demais para ele ou apenas não lhe despertou interesse, vai saber. Mas imagino que a minha vida tivesse sido diferente se meu pai fosse surfista. Tenho certeza que chegar na praia junto dele carregando uma prancha, para, em seguida, vê-lo lançar-se às ondas, teria me causado algum tipo de impressão. Claro que o tiro poderia sair pela culátra. Meu pai é engenheiro químico e eu detesto química. Se essa regra tivesse se repetido no mar, hoje estaríamos falando sobre xadrez ou sei lá o quê. Mas fica a dúvida. Tenho amigos que se formaram médicos por que o pai era médico e talvez, como no exemplo, eu decidisse transformar o hobby do meu pai surfista numa tradição familiar, digna de emblemas, álbuns de fotos e reformas de pranchas antigas que, como relógios de parede, estariam na família há décadas contadas.
Toda vez que vou a praia e vejo um moleque brincando sozinho, imagino que há um pai surfista dentro d'água que será recebido como herói quando voltar à areia. Para não falar que deve ser mais fácil para um garoto que, treinado em identificar o próprio pai num line up distante, acaba aprendendo, simultaneamente, a decifrar as ondas e seus caprichos aleatóreos. Não consigo deixar de invejar isso, da mesma maneira que invejo o sentimento de um garotinho remando pela primeira vez no outside junto do pai e de seus amigos.
Eu ainda não tenho filhos mas namorei uma menina que tem um. Tiago adora praia e não pude evitar de lembrar dele no momento em que meu irmão me ligou para contar sobre o nascimento de meu sobrinho. Na verdade, eu já penso no menino há algum tempo e quando vi, depois de pegar onda no sábado passado, um garotinho na areia olhando para o mar, me perguntei se Tiago lembra de mim quando vê um surfista. Mais ainda, se o fato da mãe dele ter namorado comigo viria, algum dia, a empurrá-lo para dentro do mar em direção às ondas ou se sua reação seria a contrária. Nunca vou saber pois esse namoro ficou para trás embora o amor pelo garoto continue. Talvez um dia, se tiver sorte, eu esbarre com ele num sábado de manhã na Itamambuca, entrando numa onda da série para a qual eu não tive disposicão de remar. Confesso que me tomaria de orgulho e me manteria calado, como deve fazer o autor de um crime que lê sobre sua façanha no jornal do dia seguinte.
Torço para que meu sobrinho, o Felipe, surfe comigo um dia. Tiago seria muito bem-vindo e, para ser ainda mais perfeito, meu pai também. O line up de uma vida dentro d'água, vendo as ondas passarem diante dos olhos. Com sorte, um de nós pegaria um tubo. Só para provar ao tempo quem é que manda.

8.13.2007

Geração Realce

POR EDUARDO SIQUEIRA, O GODUM


Outra dia, ouvindo de bobeira um dos clássicos do New Order, The Perfect Kiss, me surgiu muito nítida as lembranças dos tapes vanguardistas do Realce. Quem tem mais de 30, e pegava onda na época, sabe o que significou perder alguns finais de tarde de mar mexido pra ligar na Record e assistir ao Realce.
Começou em 83 e era novo, diferente, revolucionário. Antes do Realce, era difícil assistir surfe. DVD, nem existia. Filmes, ou você tinha a sorte de colocar as mãos em alguns poucos VHS's que alguém trazia de fora ou se contentava com as exibições antológicas no Hotel Nacional (Achei que era incêndio!) ou no Teatro de Lona, perto do planetário.
Quando começou a passar vídeos todo sábado com tudo o que estava acontecendo no mundo do surf, a galera simplesmente pirou. A quantidade de imagens trazidas até nós pelos Ricardos - Bocão e Antonio - era, por si só, um feito. Toda a evolução dessa geração, Occy x Curren, Carroll dismistificando Pipe, Curren em Rincon (esse tape vale um artigo solo), Dadá em quinto em Sandy Beach, Fedelho despachando no Hang Loose em Floripa, Fabinho com estrepe no joelho e parafina na boca aparecendo para o Brasil em Itamambuca, entre muitos outros, registrada em vídeos quase caseiros. Tinha cobertura de campeonato mundial, viagens e free surf. A galera não dava mole e gravava as fitas só com os tapes, sem os comerciais, trabalhando na edição roots com o pause, FF e Rew do JVC pré-histórico. Os irmãos Musa, de Nova Ipanema, sempre foram os mais dedicados e caso os Ricardos tenham perdido algo é só pedir que eles têm o VHS com certeza. A galera se reunia na casa deles pra ver o Realce e os tapes gravados todo sábado, às 17hrs, num evento concorrido, regado a queijo quente, frango da geladeira, bomba do Ettore e Coca. Todo mundo moleque, quando surfar era a vida e assistir aos tapes a garantia de inspiração dentro d’agua. A gente via e revia várias vezes pra depois tentar repetir dentro d’água. Era o backside do Occy, o estilo do Curren, as manobras do Dadá, o aproach do Potz, os floaters do Richie Collins e até o biro-biro do Damien Hardman (zoação da época).
Outro capítulo a parte eram as trilhas sonoras. Sempre iradas e inovadoras, com certeza influência para toda uma geração. Se não fosse o Realce, acho que o Hoodoo Gurus e o Spy vs Spy nunca teriam feito um show por aqui.
Sempre ligado, eu corria atrás e descolava os sons pra galera. E o engraçado eram as referências: "Aí,grava aquela Free Nelson Mandela do tape do Barton Lynch de backside no Spurs na Àfrica?"
Essa geração teve o privilégio de pegar onda e ter o Realce pra assistir. Eu sei que hoje temos programas diários na TV e transmissão ao vivo do WCT, mas o significado do Realce na época foi único. Dadá destruindo no Arpoador ao som de No Sleep Till Broklin marcou uma geração. Surfe inacreditável e som perfeito.
Lendo:


Molusco


Vai a dica de mais uma surfshop que pensa diferente: a Mollusk. Situada em San Diego, essa loja vende artigos no mínimo fora da curva, medíocre, da maioria das surfshops que conhecemos. Tem artigos de arte, livros, dvds, pranchas, tudo arranjado de uma maneira a nos fazer pensar o surfe para além da performance.
Vale a visita e o clique na sessão de vídeos com conteúdo gerado pela própria loja sobre seus shapers.

8.09.2007

Surfs Up - Trailer

Dica do Nando Zenari.

8.07.2007

Nicarágua - Quintal da América.

POR RODRIGO ZARDO


O local da próxima Trip já estava definido: sem dúvida seria para Nicarágua. Começamos a tentar buscar mais informações do país, das cidades e dos picos de surf. Somando as dicas, os vários sites visitados, e o fato da região de Popoyo ser a mais conhecida, e por isso mais crowdeada de americanos, escolhemos seguir mais ao sul para a cidade de San Juan del Sur, próxima à divisa com a Costa Rica.
Saímos aqui do Rio no dia 27 de junho, em um vôo com escala no Panamá e depois na Costa Rica, chegando então em Manágua. A capital da Nicarágua fica situada bem no centro do país, “longe” do litoral. No aeroporto alugamos um 4x4 e partimos para o nosso destino final. No caminho encontramos um país bastante rural, com estradas simples e pouco sinalizadas, uma natureza bem preservada e um povo tranqüilo, que em nada lembrava as notícias de conflitos armados de anos atrás.
Escolhemos uma pousada em Playa Madera, um beach break de boa formação com ondas para os dois lados. Fomos descobrindo que, na verdade, essa praia é uma das poucas com acesso liberado. Um problema recorrente na Nicarágua é que os proprietários de terras compram as áreas em volta das praias e não permitem o acesso a areia, a não ser que você alugue uma propriedade dentro desses loteamentos. Com isso, fomos obrigados a recorrer a pequenos barcos para as caídas diárias. Em aproximadamente uma hora podíamos chegar a uns sete ou oito picos de diferentes formações, desde esquerdas longas (Manzanillo), com umas oito a nove manobras por onda, quebrando em um point break colado no penhasco, um outro com direitas e esquerdas tubulares em um beach break que quebrava tanto na maré vazia como na cheia, ou um pico de direita, com altas ondas quebrando em três seções bem definidas, conhecido como “Pangua Drop” (devido ao grande número de barcos que já viraram por lá.). Se você cair na besteira de perguntar para os locais ou consultar algum site, eles vão dizer que é uma onda ruim, toma muito na cabeça e que tem que remar muito.
De barco, em pouco mais de uma hora chegamos a Popoyo, uma praia com vários picos bons, com ondas um pouco mais curtas e um reef mais à esquerda da praia, que tem uma onda de boa formação para os dois lados. Lá quebra uma das maiores ondas do país; um outside reef que, com o swell certo, segura esquerdas sólidas de até 12 pés.
Existem ainda vários outros picos menos conhecidos e divulgados, com surf de qualidade e, o melhor, no quintal da América.
Deixe na praia somente as suas pegadas – Surfrider Foundation.

Artesanato


Já se escreveu sobre a evolucão do surfe aqui no Chasing. É um assunto polêmico e que abre espaço para muitas opniões, sempre bem-vindas. Defendo que as marcas de surfe, que hoje faturam fortunas, têm feito muito pouco pela evolução dos equipamentos. Tanto no que se refere à tecnologia quanto à estética. Mas isso não exclui o fato de que o lado artesanal da fabricação de pranchas precisa continuar existindo. É um aspecto presente na história do esporte e que continua sendo necessário e relevante. Coerente com essa visão, aqui vai uma dica: a 101 Fins. São de madeira, artesanais e lindas.

8.06.2007

Exílio


Uma maré gelada se agarrou ao litoral do sudeste brasileiro com determinação. Sua água escura e fria parece ter adotado as praias de São Sebastião, e também Guarujá, como morada de férias, do mesmo jeito que um gringo elege o Brasil e aqui fica, meio desbundado com a beleza e com a facilidade de se encostar. Esse mesmo mar esfriou o vento sul e sudeste e empurrou sua temperatura baixa para dentro das florestas que resistem nas montanhas do litoral norte. Esses grupos de mata fechada são como revolucionários cubanos lutando contra o capitalismo e seus lotes imobiliários. São ilhas que, ao invés de Miami, têm o desenvolvimento de São Paulo como vizinho e ameaça. Apenas com a diferença de que essa Cuba verde não vê seus moradores se jogando em balsas improvisadas rumo ao desenvolvimento e à grana. Na verdade, o que acontece é o contrário. Eu, que moro em São Paulo, me pego agora boiando em meu longboard no mar gelado e com ondas pequenas de Camburi. Têm locais juntos de mim mas a maioria dos surfistas que dominan o line up também não são daqui. Se lançaram na estrada com suas pranchas e desespero, esperando que o surfe os faça esquecer de onde precisam ganhar a vida para lembrarem de onde podem desfrutá-la. Eu sou um deles remando e torcendo para aceitarem meu pedido de asilo. Os longboards ajudam a clorir a visão pois, com exceção do meu, a maioria é pintada de cores fortes que, num dia de sol e mar azul escuro como o de hoje, saturam o espetáculo. Essa era a primeira vez que surfo com tantos caras bons. Depois de cada onda, passam por mim sujeitos que, com muita elegância, manobram seus pranchões com a desenvoltura digna de filmes. Algumas vezes, mais de um por onda e - sem deixarem o mau humor estragar o dia – sempre sorrindo por saberem que o mar é para todos. Essa visão me fez lembrar da matéria que havia lido na revista de surfe australiana Tracks, autoentitulada “A bíblia do Surfe”, sobre brasileiros invadindo aquele país. O jornalista nos descreve como desesperados, expurgados do Brasil pela pobreza, violência e corrupção pública para crowdear as cidades da Gold Coast em busca de uma vida digna e repleta de boas ondas. Termina nos dando as boas-vindas, mas com uma sugestão: que não fôssemos para as melhores praias, mas para as cidades ao lado, onde não causaríamos tanto incômodo. A unânimidade do artigo é a nossa falta de educação e de como “seríamos capazes de remar por cima de nossas próprias avós para dropar uma da série.”. Olho para o meu reflexo n’água, me viro e vejo todos os outros que estão surfando ao meu redor, felizes e silenciosos. Não nos reconheço naquela descrição. Não nesse dia.


Esses são os desenhos que fiz para um amigo. A prancha já tá na laminação e quando estiver pronta, publico a foto. Não sei qual ele escolheu.

Tuba - zizzzzz - rão!!


Surfistas do mundo todo, incluindo do Recife, podem surfar mais tranqüilos. Chegou ao mercado o Sharkshield, um aparelho que, preso na rabeta da prancha, emite pulsos elétricos que deixam tubarões desnorteados, evitando, assim, um ataque. Abaixo, um vídeo sobre o assunto e um outro, para quem fica imaginando: por que será que os caras tem tanto medo desse peixinho? Dica do Ricardo Balduíno. Mais, aqui.



8.03.2007

E o Inside? Tem Dono?

POR GIOVANNI BISCARDI - FOTO: VAVÁ RIBEIRO



Se remar na melhor da série eu torço para cair! Os que me conhecem sabem que é verdade. Mas antes de ser esculachado pelos blogueiros de plantão, gostaria de me justificar...
Durante anos surfei no Meio da Barra, no pico mais conhecido por 3.100 devido à localização em frente ao condomínio de mesmo número na Av. Sernambetiba. O crowd no 3.100 era uma atração a parte. Tinham os locais legítimos que moravam em frente ao pico, tais como Sérgio "Fedelho" Noronha, Guto Carvalho, Marcos ADN e Roberto Casquinha. Mas o interessante mesmo era a presença de um grupo de surfistas que vinha de longe, na maioria das vezes do bairro da Tijuca, que conseguiram se tornar locais do 3.100 na base da raça. Eles chegavam de Fusca, de 233 (linha de ônibus que liga a Tijuca à Barra) ou de moto. Dentre tais "haoles residentes", o expoente sempre foi o eterno ídolo Dadá Figueiredo, um dos surfistas mais respeitados da história do surf brasileiro.
Da minha parte, estava na fase de aprendizado. Portanto, observar os grandes talentos do 3.100 fluindo na água era tão importante quanto assistir o Tom Curren no Realce. Por conta disso, passei horas e horas da minha adolescência em frente ao pico, observando surfistas de renome nacional batalhando pela melhor direita da série.
No entanto, desde cedo notei que as melhores ondas não eram aquelas surfadas pelo pessoal que se degladiava no outside em busca da maior do dia. Para mim, a mágica estava nas ondinhas menores surfadas pelo Dadá Figueiredo no inside...
Você acha impossível que uma direita da série bem surfada pelo Fedelho pudesse ser ofuscada por uma merreca surfada pelo Dadá no inside, não? Pois para mim era...
Velocidade, várias batidas na cara, 360ºs e os famosos laybacks...essas ondas do Dadá fizeram nascer em mim a verdadeira paixão pelo surfe. A combinação Dadá Figueiredo e inside do 3.100 era perfeita. Vou além...o Dadá do inside botaria na kombi o Dadá das maiores da série em quantas baterias virtuais fossem possíveis imaginar.
O pior de tudo é que lembro de ter sido, ainda moleque, rabeado por todos os grandes surfistas do pico, mas nunca pelo Dadá. Ou seja, o inside sempre teve dono e o Dadá tomou posse de forma mansa e pacífica, mesmo estando sempre mais para o "rabo" da onda.
Depois de anos de inside no 3.100, tendo experimentado insides internacionais como o de Sunset, Señoritas, Haapiti e Macarronis, não fico nem um pouco acanhado em dizer que me especializei na arte de surfar o "quebra coco". Tudo isso sem fama de rabear.
O segredo é simples. Além da arte de surfar, aprendi com o Dadá Figueiredo o famoso olhar "233". Aquele meio de lado, já saindo, indo embora, louco pela onda, que derruba qualquer um. Esse só aprende quem cruzou o Alto da Boa Vista de ônibus em direção ao mar, equilibrando a prancha na roleta.
Com ele faço a melhor parafina ficar escorregadia e a melhor quilha ficar instável. Dificilmente alguém consegue conectar o inside! Nesse momento eu viro o bico, dou duas remadinhas de leve e é só alegria!

8.02.2007

Lendo:


Ouvindo:

8.01.2007

A Voz dos Muros





Um amigo surfista e grafiteiro mandou as fotos de sua última ação. Pau neles.

7.31.2007

Na Arrebentação


Ilustração: Evan Hecox

Da areia, sentado na canga de uma menina, ouvindo o Ipod ou o papo de pessoas que você não conhece, mas que estão ali ao lado, não dá pra imaginar o que é o line up. Aliás, antes de surfar, eu nem sabia que essa palavra existia. Parecia simples: as ondas vinham para todos e bastava você estar ali que tudo daria certo. Difícil mesmo parecia ficar em pé na prancha, o resto deveria ser mole. Claro que no momento que comecei a pegar o jeito e a me arriscar um pouco mais, recebi a dura lição. Surfar, antes de mais nada, significa aprender a dividir a arrebentação com outros surfistas e não me esqueço do meu cuidado para não atrapalhar qualquer um que estivesse num raio de 10km ao meu redor. No silêncio que reina n’água, tentava identificar os códigos de conduta, nem sempre claros, que fariam de mim um estorvo a menos e, conseqüentemente, um surfista a mais.
Quando decidi começar a escrever um blogue, ainda não tinha uma idéia muito clara do formato ou da pauta. Sempre achei que o surfe acabaria dominando alguns aspectos de seu conteúdo, afinal, esse é o assunto que, quando não estou trabalhando, estou fazendo ou sonhando. Mas nunca tive a pretensão de um dia ver o Chasing sendo indicado por outros blogues. Quanto menos, blogues de surfe. Achei que teria muita sorte se meus amigos apenas o lessem quando eu pedisse e me senti muito pressionado a encontrar informações um pouco fora da curva para que, ao menos, pudesse surprendê-los na originalidade.
Na semana passada, alguns blogues de bons surfistas, leitura obrigatória na web, recomendaram o Chasing para seus leitores: o Pedro Arruda do Ondas, o Giovanni Mancuso do Tracks e o Júlio Adler do Goiabada. No caso do Surf4ever, do Otto, chegamos a travar contato por email. O Mancuso também comentou algumas matérias no Chasing e o Pedro Arruda, com seu post, foi mais que generoso. Me senti novamente como quando estava começando a surfar, tentando não dar bandeira para os verdadeiros surfistas ao meu redor de que era um prego sem a menor idéia do que estava fazendo. Nem preciso dizer que na internet, para meu desespero, não dá para remar para longe. Naquela época, Gustavo Paixão, um amigo que tentava me convencer a aprender a surfar, me disse algumas palavras que continuam ecoando na minha cabeça como um mantra. “Felipe, surfar não é ficar em pé na prancha, fazer manobras e papagaidas. Surfar é prestar atenção no mar, no visual e curtir os brothers, trocando idéias dentro d’água. Você vai cair um porrada de vezes mas, numa hora, vai conseguir ficar de pé. Surfar é isso.”
Eu surfo por causa disso e sou muito grato aos amigos blogueiros que me permitiram dividir o line up com eles. Boas ondas para todos.

Surfe é rip (O rejuvenescimento do ser na era do ter.)

POR MÁRCIO MUSA, O MUSINHA - FOTO: VAVÁ RIBEIRO



Outro dia, fui surfar com um amigo meu, que já surfou bem nos anos 80/90, mas ele estava totalmente fora de forma. Pai de uma filha, advogado e acima do peso, estava sem remada alguma, sem rip, há meses sem molhar a prancha Joca Secco (já empoeirada) na água.
Após ter colocado "pilha" para a sua volta triunfante ao surfe, ele aceitou meu convite e fomos surfar no meio da Barra, Rio de Janeiro. As ondas, nas séries, tinham cerca de 1 metro e meio e abriam (algumas fechavam, vamos ser francos) com pouco vento e maré cheia.
Não foi tão fácil, pois ele estava fora do rip. Há uma espécie de sintonia com as ondas, ou você se encaixa, se acha no mar, ou não, fica boiando, meio perdido, sem ação. O mar te cobra atitude, decisões imediatas e remada em dia.
É o famoso binômio ônus & bônus: Sem remada, sem recompensa. Com remada, com êxito na performance.
Ricardo Martins, um grande e conhecido shaper carioca, declarou há muitos anos (nunca me esqueci disso): "Você deve manter a remada em dia, surfando (quando der) mesmo nos dias horríveis, para poder surfar bem nos dias bons e perfeitos. Sem remada, não há muito prazer nesse esporte, pois você apanha o tempo todo do mar, que passa a ser um incômodo."
Creio que duas ou três vezes por semana (quando muito) é suficiente para que um pai de família, trabalhador, mantenha a sua remada em dia.
Falo de surfistas um pouco mais experientes, mas que não ficam na areia moscando, enquanto a vida passa. Estudamos, trabalhamos, educamos os nossos filhos, mas o segredo da energia/inspiração/motivação para o dia-a-dia é através do rejuvenescimento dentro d'água, em contato direto com a mãe natureza. Um mês fora d'água, nem pensar. 10 DIAS sem surfar, você já deve ficar preocupado e ligar o alerta vermelho para não ficar enferrujado, oxidado.
Quando mais ferrugem, menor a motivação de voltar ao surfe. Você cai numa espécie de marasmo, de acomodação perigosa. Daí vem a barriga de chopp, a falta de ânimo, o stress, a fadiga, enfim, a falta de vibração/energia do ser. Vem a bola de neve de conseqüências ruinosas. Sem rip, sem inspiração, sem metas e sem sonhos, a vida fica mais pesada, mais depressiva e desgastante.
Por isso, não deixe a vida te levar. Não se leva nada dela também, mas você pode levá-la mais leve. Os momentos ficam, as ondas passam e o tempo voa. Cedo ou tarde, sua jornada chegará ao fim. Não fique pensando muito, parado e inerte, pois, assim, jamais sairá do lugar. Você pode dar o primeiro passo, colocar a prancha no carro, tomar uma atitude e voltar a surfar.
Mas só voltar ao esporte não basta.
Lembrem-se de que é preciso manter o rip. Surfe é rip.

7.29.2007

14ºC

Do Wikipedia: HIPOTERMIA, do grego hypo, sob + thermé, calor, s.f, abaixamento da temperatura do corpo abaixo do normal (35ºC) de modo não intencional sendo seu metabolismo… Ninguém se arriscava a brincar na areia ou ficar sentado com uma cerveja vendo o mar, o que seria normal. Nem as cores apareceram. Os prédios da orla desaturaram sob a luz do dia nublado e a praia escureceu. A vista panorâmica de dentro dos apartamentos continuava, embora nenhuma das janelas estivessem abertas. Os moradores sequer apareciam por trás dos vidros que balançavam com o vento forte, frouxos em suas esquadrias. Estava assim o litoral. Os vendedores de côco, batida, milho e picolé se viram obrigados a encontrar um bico como pedreiro, pintor ou o que fosse, pois a frente fria lhes tomou parte do sustento e, nesse sábado, valeria qualquer oportunidade que lhes garantisse um qualquer.
Andar na parte rasa no sentido da arrebentação já serviu de prévia do que seria a próxima 1h30 de surfe. A água gelada encontrou caminho entre as costuras da roupa de borracha e, passo a passo, retardando mergulhar a cabeça n’água, segui até a arrebentação. As séries, com menos de 1 metro, vinham entre intervalos grandes mas no meio tempo, várias ondas menores e surfáveis balançavam o mar encrespado. Não me permiti ficar parado. Deitei em meu longboard para tirar os pés de dentro d’água e para me abaixar do vento que gelava as orelhas molhadas. Remei no máximo de ondas que pude e, para me esquentar, surfei umas três valas diferentes que formavam as ondas ao longo do canto direito de Pitangueiras e Astúrias. …sendo seu metabolismo prejudicado. Se a temperatura ficar abaixo de 32ºC, a condição pode ficar crítica ou até fatal. Temperaturas quase sempre fatais… Depois de umas boas ondas surfadas sem que eu conseguisse ultrapassar a sessão que fechava bem a minha frente, um sujeito, que já surfava desde cedo, perguntou de longe se minha quilha era daquelas que se podia ajustar com a mão. Ele se referia ao parafuso que a prende na caixa e, com minha resposta positiva, se apressou a me aconselhar, quase como se estivesse ordenando - tamanha sua certeza, a empurrá-la totalmente para trás. Por um momento achei que minha quilha estivesse solta mas, depois, entendi o que ele dizia e que, por quase um ano, estava surfando com o meu equipamento mal ajustado. Ele explicou que se a quilha central estiver muito próxima dos estabilizadores, o drag aumenta muito e a prancha perde velocidade. Foi a primeira vez que recebi um conselho dentro d’água vindo de um desconhecido. Ele continuou a explicar que sem os estabilizadores a regra é outra e a quilha pode ir mais pra frente. Peguei uma onda e tudo havia mudado realmente. Eu continuava o mesmo prego mas minha prancha ficou mais rápida, facilitando muito o cutback que consegui encaixar na onda seguinte. Não pude deixar de pensar nas ondas de Pavones em que fiquei pra trás quando sentia, logo após o drop, a borda da rabeta presa dentro d’água. Pensei também, muito grato, em como um dia frio daqueles, contraditóriamente, havia produzido um ato de camaradagem no mar. De resto, foi um bom dia de surfe como outro qualquer, com o frio indo e vindo no pensamento. …quase sempre fatais, são aquelas abaixo de 27ºC. No entanto há relatos de sobreviventes com temperaturas inferiores à 14ºC.

O Sk8 e a Evolução do SrF


O skate surgiu no concreto e, mesmo tendo sido resultado da monotonia de um dia de mar flat, tomou rumos próprios para longe do surfe, seu esporte referência.
Mas as duas atividades continuaram compartilhando o descaso, o imediatismo e a falta de sentido aparente, além da irreverência e da possibilidade de serem, ambas, um canal de auto-expressão.
Rapidamente, o skate adquiriu uma áurea de banditismo e contravenção maiores que a de seu esporte irmão. Muito provavelmente por ter surgido nos espaços não catalogados das grandes cidades, entre as formas pavimentadas de concreto que não possuem um objetivo claro. As sociedades têm dificuldade de lidar com aquilo que não conseguem compartimentar. A esquina, que não é uma rua nem a outra, por exemplo, sempre é citada quando se quer descrever o cenário de bêbados, prostitutas ou marginais. O mito do vampiro, outro exemplo, descreve um personagem que não está morto nem vivo. O lobisomem, por sua vez, fala de um ser-humano, metade bicho, que aparece nas noites – claras como o dia - de lua cheia. A própria meia-noite, tão presente nas estórias de terror, não é o ontem nem o amanhã. Talvez por isso que a idéia de ter um filho skatista continue apavorando tanto as mães, mesmo após a consagração de Bob Burnquist e Mineirinho.
Skatistas mergulharam fundo nesse personagem marginal e, por estarem presentes em maior número em centros urbanos, sempre mais efervescentes que a praia, criaram laços profundos com músicos, designers gráficos e artistas. Fruto da identificação entre elementos deslocados e questionadores. Isso pula aos olhos de qualquer um que entre em contato com o movimento cultural que gira em torno da street art e de fabricantes, grandes ou pequenos, de skateboards e de roupas. Marcas como a Chocolate e a Girl Skateboards trazem, a cada ano, decks desenhados por vários nomes de peso. Nike e Adidas, só para citar o main stream, possuem divisões de profissionais pagos, únicamente, para criarem pontes entre a cultura das ruas, o skate e seus produtos (Dê um pulo no Sneaker Freaker e veja o resultado.). Esse é o caso de Fraser Cook que, atualmente, vive em Tóquio. Encarregado pela Nike de medir o pulso das ruas, Cook é o responsável por linhas de produtos que passam longe do jeitão dryfit e atlético em prol de trabalhos mais pertubadores e autênticos. Conseqüência de sua juventude nos subúrbios de Londres, ouvindo Sex Pistols e, obviamente, andando de skate.
O fato de surfistas estarem repetindo manobras do asfalto dentro d’água tem estampado as páginas das principais revistas especializadas do mundo. Talvez seja a hora das marcas de surfe seguirem o exemplo e repetirem, elas, o comportamento da indústria do skate em relação a áreas do design, das artes e da moda. Só a Quicksilver, que tem capital aberto, faturou mais de 2 bilhões de dólares em 2006 segundo a revista Fortune. E sem fazer outro esforço que não fosse pensar numa nova maneira de estampar seus logos, cada vez maiores, em bermudas, camisetas e bonés de gosto duvidoso. Quando muito, produziu filmes pobres de espírito e estéticamente decepcionantes como o Young Guns. Esses números provam que não precisamos esperar pelo aval olímpico para a injeção de grana no esporte e sua subsequente evolução. O que falta é imaginação e inconformismo.
Um bom começo para a mudança de comportamento da indústria seria a pintura e fabricação de pranchas. Surfistas não se comportam mais como se estivessem de pé sobre antiguidades do artesanato havaiano. Pelo contrário, dão 360, voam em aerials e ollies. Não parece justo que ainda tenham, como única alternativa, que pintar suas pranchas como canoas.

No trailer abaixo você vê trechos do filme Stuntwood, produzido por Michael Leon da Commonwealth Stacks.


7.27.2007

O Surfe Não É Um Esporte Olímpico

POR RODRIGO AMADO, O LAMBARI


China Surf Open 2006

A razão não poderia ser mais óbvia. Não tem onda em todas as sedes escolhidas para os Jogos Olímpicos. Desde 1968, 5 vezes os Jogos Olímpicos foram em países onde não haviam ondas. 1972 - Alemanha, 1976 - Canadá, 1980 - União Soviética, 1988 - Coréia do Sul, 2004 - Grécia e em 2008 será na China.
Não tem onda. Será?
23 picos de surf na China. Rússia? Pergunta pro Tom Curren. Na Alemanha, pegam ondas sem fim no Rio Isar. Canadá rolam ondas dos dois lados, Vancouver e Nova Scotia. Coréia também tem! Typhoons waves. Grécia, mais de 50 picos de surf.
Tudo bem, as ondas nesses lugares são ruins, inconstantes, pequenas, de difícil acesso e etc. E no Brasil? Imbituba? WCT!!! Até a piscina de onda não pode ser descartada, afinal, no Japão já rolou etapa da ASP (Fabinho levou!) por mais de uma vez.
Se o surfe fosse esporte olímpico sua exposição seria muito maior, os patrocínios transbordariam as fronteiras do surfwear, os atletas se tornariam super astros ao conquistar uma medalha de ouro que fez o seu país subir uma ou duas posições no quadro de medalhas, os contratos com os "surfistas olímpicos" seriam milionários, na equipe da Nike estariam Slater, os Hobgood e Cris Ward, na Adidas, Marlon Lipke (surfista alemão WQS) estaria recebendo todos os investimentos possíveis, pranchas da Reebok feitas de methaliuretan injetado, a Nike com as pranchas SurfAir com bolhas de ar internas, parafinas de elastorine em spray, leashes de 0.2mm que não arrebentam fabricado pela Speedo. Imagina, o Slater subindo ao pódio com "agasalho" da equipe americana, colocando a mão no peito, ostentando sua medalha de ouro e cantando "Oh, say can you see, by the dawn's early light, What so proudly we hailed..." Ou na borda da piscina do parque aquático Maria Lenk um pódio com Andy Irons, Taj Burrow e Mineirinho levando o bronze, honrando a casa.
O esporte iria ser catapultado para um outro nível. Seria a era dos atletas desenvolvidos para serem máquinas de vitória nos mares da China, Havaí, Austrália ou da Coréia. A evolução, tão esperada e desejada, iria finalmente acontecer.
Mas... graças a deus ainda estamos longe dessa maldição. O surfe não é um esporte olímpico e nunca vai ser, pelo menos esse é meu desejo. Na verdade não sei nem se o surfe deveria ser considerado um esporte, é muito maior que isso. Como compará-lo ao salto com vara por exemplo? Imagine você, acordando as 5 da manhã, colocando sua vara de baixo do braço e saltando, saltando e saltando, por 6 horas seguidas, pára, come um açaí, volta pra mais uma sessão de saltos, todos os dias, 300 dias por ano. Se o Sergei Bubka tivesse surfado uma vez na vida, com certeza não estaria lá. Deu mole, afinal, até na Rússia tem onda.

7.25.2007

Cordless



Sol, boas ondas, surf music na areia e pranchões na água. Uma típica cena de Endless Summer recriada graças a um dos campeonatos de surf mais tradicionais na história do esporte: o Big Stick Surfing Association Logjam. A regra é clara: sufistas de todas as idades - divididos entre as categorias júnior, adulto e master, masculino e feminino, e, ainda, a disputa de equipes formadas pelos clubes de surfe locais - surfando com pranchas fabricadas antes de 1970, pesando, obrigatóriamente, acima de 9kg e sem leash.
Nesse ano, o palco do evento, realizado no ultimo final-de-semana de abril, foi a praia de Pleasure Point, Santa Cruz, CA. Com ondas de 1 metro no segundo dia e mais de 100 competidores se revesando nas baterias, o evento conseguiu arrecadar mais de U$ 4.000, doados à família de um falecido surfista local e dono de uma surf shop, morto em fevereiro após lutar durante anos contra o câncer.
O vencedor da categoria master foram Marciano "Chango" Cruz e seu longboard Stewart, fabricado em 1966.
O presidente da Big Stick, Gioni Pasquinelli, define o evento:
"It's more about the old boards, the nostalgia, and people from all the surf clubs getting together and having a good time."
Ouvindo:




Lendo:




Vendo:

7.24.2007

Clap, clap, clip - Atlas

Hawaii Surf Session Report

POR GUSTAVO SOARES

Há mais de um ano eu conheci esse genial videocast de surf, nem me lembro direito como.
Baixei um episódio no iTunes, dei o play e começou a tocar a musiquinha esquisita de fundo para uma abertura totalmente retrô. Começaram as imagens: uma manhã ensolarada, Waikiki cheio de longboarders. E com uma narração engraçada, cheia de interpretações e falsetes. Nunca mais parei de assistir.
O criador, diretor, narrador e câmera do programa é um cara chamado Tom E Stokes.
Ele sai, câmera na mão, e filma 3 ou 4 picos diferentes por episódio. Tem os famosos, como Pipeline, Off the Wall, Backdoor, mas volta e meia aparecem lugares menos radicais como Point Panics ou Kahaluu, com gente fazendo body surf, surf com remo, canoas e até body board – que todo mundo deleta, obviamente. Mas como o cara sabe filmar surf, é bom de ver mesmo quando o mar está pequeno. Aliás é reconfortante ver que até no Hawaii o mar vive pequeno.
Dá para perceber nos episódios o respeito que esse haole tem pela ilha e que a ilha tem por ele: nunca faltam cumprimentos para a câmera e gente dando entrevista. E aparece música boa, só de bandas desconhecidas que ele descobre no MySpace. Dia desses eu gostei tanto da trilha que comprei o CD no site da banda. Depois fiz uma doação de 10 doletas para o programa e escrevi um email elogiando. O Tom respondeu em 15 minutos, e acho que vai colocar um link para o Chasing quando souber que falamos dele aqui:

Aloha Gustavo
Nice to hear from you.
Glad the music and the episode served its purpose.
Thank you very very much for buying one of their CD's
by supporting the bands that support this show, you stoke me out and
most importantly it stokes them out too. You Rock!
Also thank you for your donation, it really helps me keep the show going!
I want to thank you for sharing with me your experience and the shows effect
on your otherwise busy world. It is truly my pleasure to produce
quality programing that is uplifting and soulful, it's like a five minute vacation.
We all get immersed in everyday stresses and sometimes forget what
it's all about, glad you find solstice in my show.
Keep on watching and thank you for your loyal viewership.
Aloha, Aw-right
tom


Enfim, eu apresentei o HSSR para o Proféssor (Godum) faz um tempo e ele curtiu, apresentei para o Felipe ontem, que também curtiu. Agora que está testado e aprovado, proponho que todo mundo acesse e que a gente transforme num cult.


Obs: Para assinar, é só buscar HSSR no "search iTunes store" (pra quem não sabe, fica no canto superior direito da tela). E também dá para ver no site: www.surfsessionreport.com

7.23.2007

Estilo

POR EDUARDO SIQUEIRA, O GODUM



Se alguem citar estilo e surf, para muitos logo vem a mente aquelas imagens clásicas de um cara fazendo uma cavada anos 70, totalmente em harmonia com a onda.
Mas vamos deixar essa epóca de lado e focar no presente. Sempre se acusou os campeonatos de corromperem o surf e de irem contra o espírito de soul surfing, viagens e tudo mais. Não concordo com essa linha de pensamento e acredito que o estilo de se surfar uma onda seja algo bem pessoal. O cara surfa bonito ou não. É uma forma de expressão que não depende das qualidades técnicas do sujeito. Tipo Pelé e Dadá Maravilha. Dario jogava feio mas, meio sem jeito, fez centenas de gols e foi artilheiro nos times em que jogou. Como no futebol, sempre vão existir surfistas com muita técnica e um surf feio. Mas existem outros que além da técnica possuem harmonia, sintonia e uma leveza que é bonito de se ver.
As competições provam que surfar bonito faz a diferença. Dando uma olhada nos Top 5 desde 1983, ano do primeiro título de Tom Carrol no WCT, pouquíssimas vezes teve um surfista de surf feio. Opiniões à parte, talvez o Glen Winton em 85 e o Rob Bain em 90 tenham sido as exceções. E é isso que faz a diferença num julgamento de surf. Todos os Top WCT tem as mesmas manobras na bagagem, mas o jeito de fazer é que o destaque. O julgamento hoje prioriza radicalidade com harmonia na onda. É fazer uma manobra complicada parecer fácil, sem esforço, e transparecer a sintonia com a onda e com o que ela proporciona. A mesma sintonia do tal cara do pranchão fazendo uma cavada parecer easy.
"A surfer must perform radical controlled manoeuvres in the critical section of a wave with Speed, Power and Flow to maximize scoring potential. Innovative / Progressive surfing as well as Variety of Repertoire (manoeuvres),will be taken into consideration when rewarding points for waves ridden. The surfer who executes this criteria with the maximum Degree of Difficulty and Commitment on the waves shall be rewarded with the higher scores." ASP World Tour

O Muro



Os prédios antigos da orla da Praia de Pitangueiras, Guarujá, me pareceram formar, juntos, um muro irregular, deslocado da geografia da ilha pelo seu tamanho e desproporção. E, por mais que soe contraditório, isso era bonito de ver dali de onde eu estava. Pareciam todos um pouco gastos e, por isso, mais verdadeiros, o que me levou a refletir sobre o tempo que as construções levam para serem absorvidas pela vida. Enquanto pensava, o mar me dava uma lição dura e gelada de que nem sempre um sábado de manhã é um sábado de manhã. Eu já boiava sobre minha prancha a uma hora e meia, tentando surfar ondas muito pequenas e exparsas e até aquele momento meu corpo não pareceu dar sinais de que se acostumaria com a água fria. Muitas vezes eu remei sem outro objetivo que não fosse me mexer um pouco. Claro que eu já sabia que as condicões seriam muito ruins e, no momento em que cheguei no litoral, pensei, ainda de dentro do carro, que talvez nem valesse a pena me molhar. Superar a vontade de desistir diante da falta de desafios proporcionada pela visão do oceano, foi, em si mesma, uma batalha a parte. Mas, depois, saindo da areia em direção ao carro, sob os olhares quase debochados de quem andava agasalhado pela calçada, fiquei com a sensação de ter valido a pena. Afinal, sombrancelhas salgadas, a boca seca e os ombros cansados são os mesmos, tenha sido o dia de surfe bom ou horrível - como no caso - e esse pensamento animou o papo na estrada de volta para casa. No canto da cabeça, a sensação de inutilidade do nosso esforço ainda sobrevivia, teimando em aparecer nos raros momentos de silêncio, e tomou força quando o trânsito nos obrigou a parar por alguns minutos na subida da serra. Foi nessa hora que, do meu lado esquerdo, vi um homen correndo em passos curtos pelo acostamento no sentido contrário ao nosso. Num intervalo de uns 15 metros atrás dele, uma mulher, também correndo, vestindo moleton, camiseta e com um agasalho amarrado na cintura, passou pelo nosso carro sorrindo, com uma expressão de otimismo inexplicável. Aquela visão me causou a sensação de déjà vu e tinha me conformado com isso até que um terceiro sujeito, mais peculiar, me saltou aos olhos. De longe, ele parecia uma mulher desajeitada e feia. Tinha cabelos encaracolados, longos e um pouco ruivos, presos como um rabo de cavalo. Usava boné vermelho, camisa branca, bermuda preta e meias marrons. O rosto era sardento e magro. Dava para imaginar o seu crânio através da camada de pele fina. Muito alto, mantinha os joelhos dobrados de maneira pouco natural enquanto dava suas passadas. Cutuquei um amigo que dirigia e apontei na direção do corredor desajeitado e imediatamente percebemos o que acontecia.
“Caralho, esse é aquele cara que passamos na descida da serra de manhã!”
Mais cedo, umas 5 horas antes, vimos aqueles três correndo num ponto da estrada muito acima e distante de onde estávamos agora. Erradamente, imaginamos ser uma corrida matinal como muitas e não o desafio que fomos perceber depois. Abrimos o vidro e nos inclinamos para fora. Queria que ele soubesse que eu tinha reconhecido o seu esforço e obstinação e no momento que ia dizer alguma palavra, ele nos olhou, fechou as duas mãos e agitou os braços no ar enquanto gritava com os olhos injetados. Surpresos, primeiro por nossa constatação e depois pela reação do corredor, o máximo que conseguimos fazer foi ficar de boca aberta, as mãos acenando um hang. Ele continuou seu périplo estrada abaixo enquanto eu fechava o vidro pensando naquela comemoração fora de hora, provavelmente muito longe do seu destino final. Ele celebrou a luta, a teimosia e não o sucesso. Comemorou a inutilidade daquilo tudo e salvou, assim, a minha manhã de sábado.