9.19.2007

Deslizar é preciso

POR NANDO ZENARI



Nós aqui de São Paulo temos as ondas um tanto quanto inacessíveis no meio da semana, devido a distância e o tempo que passamos trabalhando e cuidando de nossas vidas. Mas o desejo de deslizar é muito grande e, assim, aproveitamos as ladeiras e pistas para matar um pouco a vontade de se locomover em cima de uma prancha.
Nesta última semana tive a oportunidade de, junto com a nata da vagabundagem da família, desfrutar de uma divertida session de skate old school em uma pista reservada só pra gente. Funs, longs e shapes reeditados, tirando onda num bowl de madeira e revestido de MDF, projetado e construido pelo Melão, o dono da Toobsland, onde se fica a pista. Vários níveis de drop, pra quem quer apavorar com flips, aéreos invertidos e rockslides, ou simplesmente mandar um carve pra matar a saudade dos movimentos do surfe.
Espetei o meu iPod no aparelho de som (sim, você faz a trilha), e andamos aos velhos tempos, com Jello Biafra, Olga, Joey Ramone e outros esgoelando-se para celebrar o momento de comunhão sobre rodas. Todos da época em que o surfe e o skate se misturavam. Quem pegava onda, andava de skate. E vice-versa.
Aí você se atira. Cai no chão, quica, pega o skate e continua. Erra, voa do carrinho, acha que é de borracha e entra no "go for it" da galera. Corpo e alma anestesiados. Gritos compartilhando os momentos. E tudo isso numa segunda-safada-chata-feira. Fez da semana já esfolada pelo feriado, ainda mais curta e passageira.
Mas como tudo tem seu preço, e ele fica cada vez mais caro conforme você vai acumulando anos, voltei pra casa com uma coleção de hematomas. Roxos de todas as tonalidades, tamanhos e volumes. Valeu a pena, mas água não machuca...

9.14.2007

Efeito Placebo


Foto: Grant Ellis

Essa semana começou como todas as outras desde quando comecei a surfar. Sentei na minha mesa no canto da sala e fui vendo, um a um, os fantasmas se acomodarem em seus lugares. Com a forma de suas bundas moldadas nos assentos das cadeiras, pareceu quase natural que passassem o resto do dia ali sem se levantarem. O organograma inteiro da empresa, da base ao topo, remando ao som dos tambores num prédio sem janelas, sem remos, sem velas e sem vista para o mar. Eu também sou um deles e se nessa segunda-feira olhei com distância para os meus companheiros de escritório, foi para disfarçar a consciência de que também teria que passar a semana inteira sentado na fôrma que moldei para mim mesmo.
Li que o desenho da face é conseqüência de sua língua natal. A pronúncia das palavras modela os músculos do rosto que acabam por definir a sua aparência. Acredito que aconteça o mesmo com as funções que temos na vida: um carpinteiro fica com cara de carpinteiro. Como posso então me sentir tão fora de lugar num ambiente onde passo de 5 a 6 dias por semana? Me levanto, atravesso o longo corredor que leva até as salas de reunião e entro no banheiro para poder me olhar no espelho e ter certeza. Estamos ali, eu e meu reflexo, nos observando como desconhecidos que se esbarram num vagão metrô.
Realizo que quem moldou minha imagem no espelho não foi esse escritório ou as salas de reunião ao lado, os envelopes que me esperam na mesa ou os emails piscando na minha caixa-postal. Meu reflexo ganhou seus contornos depois de mais um dia de surfe. Já são quase dois anos desde a primeira vez e esse final de semana não foi diferente. Foi só mais um, como na maioria das vezes, e o mar nem estava bom, como era de se esperar. Mas isso realmente importa? Claro que não. Surfe não é o remédio. Surfe é o placebo. É a capsula cheia de açúcar que você engole, sente a febre baixar e os problemas se resolverem. Volto para minha cadeira e entendo que as coisas ficaram mais fáceis. Acabaram-se os tons de cinza e a vida passou a ser irremediavelmente mais simples: preta e branca. Surfar é bom, o resto é chato. E se com essa constatação viver ficou melhor, a segunda-feira, por outro lado, tornou-se insuportável. Tão longa que seus efeitos só foram acabar nessa sexta, quando tive coragem de postar aqui os meus tormentos. Mas, tudo bem. Amanhã é sábado, dia de remédio.

9.12.2007

Eu preferia estar surfando

Todo dia, não importa a hora, somos defrontados com situações que nos fazem perceber o rídiculo de certos aspectos da vida moderna. Sem o surfe, sabe-se lá o que seria de nós. Dito isso, inauguramos a sessão "Eu preferia estar surfando". Aqui, serão postadas fotos que registrem os absurdos do dia-a-dia. Um sinal claro de que não perdemos a lucidez e, ao mesmo tempo, um manifesto do quanto preferíamos estar no mar. Contribua.

Asfalto Verde


A Habitat Skateboards é mais uma daquelas marcas que fogem da paisagem. Produtos com algodão orgânico, decks de hemp ou bambú e artistas com uma pegada diferente.

Shapers



Aqui vai a dica: dois shapers e seus blogues. O Hesssurfboards e o Custom Shapes. Vale a visita.

9.03.2007

Ouvindo - Surf Wax America


Dica do Henri Honda, lá de Lisboa.

Ladeira

POR GUY COSTA




Sou baiano e vivi em Salvador até meus 23 anos. Trabalhei na Ladeira da Barra em uma agência chamada Propeg. Saia na hora do almoço e sempre nadava em uma praia famosa de Salvador, a Porto da Barra. É um lugar incrível, de água transparente e mesmo sendo mar, parece uma piscina. Sempre imaginei enquanto nadava o quanto seria lindo se aquele lugar tivesse onda. Seria um privilégio. Então, nessa última grande ressaca que atingiu o Brasil aconteceu em um dia tudo o que sempre imaginei. Deu onda no Porto da Barra em Salvador. E não foi qualquer onda, foi uma daquelas que a gente olha e pensa o quanto seria bom estar, ou pelo menos, tentar estar ali. Entrou realmente forte e com tamanho. Infelizmente hoje eu moro aqui em SP e não pude nem tentar aproveitar essa coisa inesperada, brilhante, admirável, insuperável, prazerosa que o mar pode fazer por nós: ondas. O que me deixa feliz é que alguns abençoados puderam estar naquele momento e gravar na memória do Surf que o mar faz ondas onde ele quiser. À vida boa!