7.25.2007

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7.24.2007

Clap, clap, clip - Atlas

Hawaii Surf Session Report

POR GUSTAVO SOARES

Há mais de um ano eu conheci esse genial videocast de surf, nem me lembro direito como.
Baixei um episódio no iTunes, dei o play e começou a tocar a musiquinha esquisita de fundo para uma abertura totalmente retrô. Começaram as imagens: uma manhã ensolarada, Waikiki cheio de longboarders. E com uma narração engraçada, cheia de interpretações e falsetes. Nunca mais parei de assistir.
O criador, diretor, narrador e câmera do programa é um cara chamado Tom E Stokes.
Ele sai, câmera na mão, e filma 3 ou 4 picos diferentes por episódio. Tem os famosos, como Pipeline, Off the Wall, Backdoor, mas volta e meia aparecem lugares menos radicais como Point Panics ou Kahaluu, com gente fazendo body surf, surf com remo, canoas e até body board – que todo mundo deleta, obviamente. Mas como o cara sabe filmar surf, é bom de ver mesmo quando o mar está pequeno. Aliás é reconfortante ver que até no Hawaii o mar vive pequeno.
Dá para perceber nos episódios o respeito que esse haole tem pela ilha e que a ilha tem por ele: nunca faltam cumprimentos para a câmera e gente dando entrevista. E aparece música boa, só de bandas desconhecidas que ele descobre no MySpace. Dia desses eu gostei tanto da trilha que comprei o CD no site da banda. Depois fiz uma doação de 10 doletas para o programa e escrevi um email elogiando. O Tom respondeu em 15 minutos, e acho que vai colocar um link para o Chasing quando souber que falamos dele aqui:

Aloha Gustavo
Nice to hear from you.
Glad the music and the episode served its purpose.
Thank you very very much for buying one of their CD's
by supporting the bands that support this show, you stoke me out and
most importantly it stokes them out too. You Rock!
Also thank you for your donation, it really helps me keep the show going!
I want to thank you for sharing with me your experience and the shows effect
on your otherwise busy world. It is truly my pleasure to produce
quality programing that is uplifting and soulful, it's like a five minute vacation.
We all get immersed in everyday stresses and sometimes forget what
it's all about, glad you find solstice in my show.
Keep on watching and thank you for your loyal viewership.
Aloha, Aw-right
tom


Enfim, eu apresentei o HSSR para o Proféssor (Godum) faz um tempo e ele curtiu, apresentei para o Felipe ontem, que também curtiu. Agora que está testado e aprovado, proponho que todo mundo acesse e que a gente transforme num cult.


Obs: Para assinar, é só buscar HSSR no "search iTunes store" (pra quem não sabe, fica no canto superior direito da tela). E também dá para ver no site: www.surfsessionreport.com

7.23.2007

Estilo

POR EDUARDO SIQUEIRA, O GODUM



Se alguem citar estilo e surf, para muitos logo vem a mente aquelas imagens clásicas de um cara fazendo uma cavada anos 70, totalmente em harmonia com a onda.
Mas vamos deixar essa epóca de lado e focar no presente. Sempre se acusou os campeonatos de corromperem o surf e de irem contra o espírito de soul surfing, viagens e tudo mais. Não concordo com essa linha de pensamento e acredito que o estilo de se surfar uma onda seja algo bem pessoal. O cara surfa bonito ou não. É uma forma de expressão que não depende das qualidades técnicas do sujeito. Tipo Pelé e Dadá Maravilha. Dario jogava feio mas, meio sem jeito, fez centenas de gols e foi artilheiro nos times em que jogou. Como no futebol, sempre vão existir surfistas com muita técnica e um surf feio. Mas existem outros que além da técnica possuem harmonia, sintonia e uma leveza que é bonito de se ver.
As competições provam que surfar bonito faz a diferença. Dando uma olhada nos Top 5 desde 1983, ano do primeiro título de Tom Carrol no WCT, pouquíssimas vezes teve um surfista de surf feio. Opiniões à parte, talvez o Glen Winton em 85 e o Rob Bain em 90 tenham sido as exceções. E é isso que faz a diferença num julgamento de surf. Todos os Top WCT tem as mesmas manobras na bagagem, mas o jeito de fazer é que o destaque. O julgamento hoje prioriza radicalidade com harmonia na onda. É fazer uma manobra complicada parecer fácil, sem esforço, e transparecer a sintonia com a onda e com o que ela proporciona. A mesma sintonia do tal cara do pranchão fazendo uma cavada parecer easy.
"A surfer must perform radical controlled manoeuvres in the critical section of a wave with Speed, Power and Flow to maximize scoring potential. Innovative / Progressive surfing as well as Variety of Repertoire (manoeuvres),will be taken into consideration when rewarding points for waves ridden. The surfer who executes this criteria with the maximum Degree of Difficulty and Commitment on the waves shall be rewarded with the higher scores." ASP World Tour

O Muro



Os prédios antigos da orla da Praia de Pitangueiras, Guarujá, me pareceram formar, juntos, um muro irregular, deslocado da geografia da ilha pelo seu tamanho e desproporção. E, por mais que soe contraditório, isso era bonito de ver dali de onde eu estava. Pareciam todos um pouco gastos e, por isso, mais verdadeiros, o que me levou a refletir sobre o tempo que as construções levam para serem absorvidas pela vida. Enquanto pensava, o mar me dava uma lição dura e gelada de que nem sempre um sábado de manhã é um sábado de manhã. Eu já boiava sobre minha prancha a uma hora e meia, tentando surfar ondas muito pequenas e exparsas e até aquele momento meu corpo não pareceu dar sinais de que se acostumaria com a água fria. Muitas vezes eu remei sem outro objetivo que não fosse me mexer um pouco. Claro que eu já sabia que as condicões seriam muito ruins e, no momento em que cheguei no litoral, pensei, ainda de dentro do carro, que talvez nem valesse a pena me molhar. Superar a vontade de desistir diante da falta de desafios proporcionada pela visão do oceano, foi, em si mesma, uma batalha a parte. Mas, depois, saindo da areia em direção ao carro, sob os olhares quase debochados de quem andava agasalhado pela calçada, fiquei com a sensação de ter valido a pena. Afinal, sombrancelhas salgadas, a boca seca e os ombros cansados são os mesmos, tenha sido o dia de surfe bom ou horrível - como no caso - e esse pensamento animou o papo na estrada de volta para casa. No canto da cabeça, a sensação de inutilidade do nosso esforço ainda sobrevivia, teimando em aparecer nos raros momentos de silêncio, e tomou força quando o trânsito nos obrigou a parar por alguns minutos na subida da serra. Foi nessa hora que, do meu lado esquerdo, vi um homen correndo em passos curtos pelo acostamento no sentido contrário ao nosso. Num intervalo de uns 15 metros atrás dele, uma mulher, também correndo, vestindo moleton, camiseta e com um agasalho amarrado na cintura, passou pelo nosso carro sorrindo, com uma expressão de otimismo inexplicável. Aquela visão me causou a sensação de déjà vu e tinha me conformado com isso até que um terceiro sujeito, mais peculiar, me saltou aos olhos. De longe, ele parecia uma mulher desajeitada e feia. Tinha cabelos encaracolados, longos e um pouco ruivos, presos como um rabo de cavalo. Usava boné vermelho, camisa branca, bermuda preta e meias marrons. O rosto era sardento e magro. Dava para imaginar o seu crânio através da camada de pele fina. Muito alto, mantinha os joelhos dobrados de maneira pouco natural enquanto dava suas passadas. Cutuquei um amigo que dirigia e apontei na direção do corredor desajeitado e imediatamente percebemos o que acontecia.
“Caralho, esse é aquele cara que passamos na descida da serra de manhã!”
Mais cedo, umas 5 horas antes, vimos aqueles três correndo num ponto da estrada muito acima e distante de onde estávamos agora. Erradamente, imaginamos ser uma corrida matinal como muitas e não o desafio que fomos perceber depois. Abrimos o vidro e nos inclinamos para fora. Queria que ele soubesse que eu tinha reconhecido o seu esforço e obstinação e no momento que ia dizer alguma palavra, ele nos olhou, fechou as duas mãos e agitou os braços no ar enquanto gritava com os olhos injetados. Surpresos, primeiro por nossa constatação e depois pela reação do corredor, o máximo que conseguimos fazer foi ficar de boca aberta, as mãos acenando um hang. Ele continuou seu périplo estrada abaixo enquanto eu fechava o vidro pensando naquela comemoração fora de hora, provavelmente muito longe do seu destino final. Ele celebrou a luta, a teimosia e não o sucesso. Comemorou a inutilidade daquilo tudo e salvou, assim, a minha manhã de sábado.

7.19.2007

S. A. L.

Vamos inagurar o nosso serviço de atendimento ao leitor com um email do Gustavo Soares, o J. Essa é a resposta que recebemos dele ao nosso news letter improvisado. J, redator e surfista, vem colaborando com alguns posts e tem espaço garantido aqui no Chasing.

Eu não entendo nada sobre campeonatos de surf, embora eu esteja sempre competindo: sou eu contra as ondas, eu contra o crowd, eu contra o meu orgulho.
Afinal eu já tinha chegado numa situação confortável na vida, alguns caminhos já estavam sendo pavimentados e eu era feliz. Mas aí, há 657 dias, eu fiquei em pé numa prancha e as coisas mudaram. Resolvi deixar para trás quem quer que eu fosse fora da água e passei a perseguir alguém que vive dentro dela.
Já procurei esse alguém na Barra da Tijuca, em Camburi, no Guarujá, em Mancora (Peru), na Nova Zelândia e na Costa Rica – e na Costa Rica eu encontrei com ele algumas vezes, por rápidos minutos. Olhando as fotos da viagem eu vejo que o cara malandramente se colocou no meio da galera e saiu como se fosse eu. Mas não era. Eu sou branquelo, tenho menos cabelo e tenho a expressão preocupada.
Um dia eu estava com todo mundo dentro da água. Saí para cagar e o tal cara voltou com o meu Fun Board. Ele dropou duas ondas na sequência, recebeu os cumprimentos e saiu da água. Eu ouvi o Goda, o Gugu, toda a galera comentar: Mandou bem, porra, no pico, mó currrrvão. Eu fingi que entendia, fingi que estava agradecido, mas não era eu. Era ele. Eu sou o o que fica sentado aqui, que não sabe remar direito, que olha a previsão das ondas a cada 15 minutos e só consegue surfar uma, duas vezes por semana.
Já o cara é mais jovem, mais leve. Ele não se estressa com nada, porque entendeu que o mar é feito de milhares de moléculas de água que sacolejam com a passagem de energia durante milhares de quilômetros e de repente se alinham para a esquerda ou para a direita e permitem alguns segundos de uma sensação de vitória que nenhum orgasmo, nenhuma Copa do Mundo podem igualar. E também entendeu que só isso importa, azar do resto. Eu? Eu acho foda de tão difícil.
Leio sempre o seu blog, mas o que eu sei? O outro, que surfa, poderia opinar que o Bruce Irons tirar a camiseta e dar para o Mineirinho – ao contrário do que disse o pessoal do Sportv – foi uma demonstração de respeito, admissão de derrota, e por isso, de grandeza. Mas eu achei uma puta babaquice, talvez porque além de não surfar nada, ainda por cima não entendo nada de campeonatos de surf.
E agora vem esse seu email. Como disse, olho sempre o blog, porque acho que você escreve muito bem. Enfraquece às vezes, quando caga umas regritas, e está demorando cada vez mais para abrir com tantos penduricalhos que você coloca. Mas virou um hábito delicioso acessar Chasing The Lotus todos os dias. Tanto que eu já apareci lá, com um comentário sobre um livro de surf que só eu li (mal aí, Carlinhos, mas o primeiro a colaborar fui eu). Noves fora, o fato é que fiquei sem entender porque estou no meio dessa galera toda, esse crowd de bons surfistas, Mentawaiians, bintangueiros e tudo mais. Você sabe que eu não conheço todos os caras, eles não me conhecem, eu não tenho nada para acrescentar sobre vídeos, músicas e, mais uma vez, campeonatos. Por que será que você me botou na lista, se eu não estou nessa barca?
Aí me ocorreu que você tem o meu email, mas não tem o do outro eu. Se tivesse, tinha mandado para ele.

J

Ouvindo



Essa foi uma dica do Edu Rodrigues. Mattson 2 é banda que ouvimos no trailer do The Thread em nota anterior aqui no Chasing.